A necessidade de princípios universais religiosos

By Arnóbio - Last updated: Sunday, April 11, 2010 - Save & Share - Leave a Comment
Journey to Self-Realization Traduzi e transcrevi abaixo uma entrevista concedida por Paramahansa Yogananda em 1.951 ao Professor Bhagwat S. Upadhyaya de Universidade Rajputana do estado de Rajastão, reconhecido historiador da cultura indiana. A entrevista foi publicada no livro Journey to Self-Realization, 1997 – 1a. Edição – Páginas 178 – 190, disponível em www.omnisciencia.com.br (em inglês).

Na entrevista, aquele que é considerado o fundador da Ioga no Ocidente, responde diversas questões, tais como a prática da Hatha Yoga, os malefícios das práticas tantrikas, a necessidade do guru, a unidade fundamental de todas as religiões, a razão das crises contemporâneas e o comunismo, dentre outros assuntos.

A entrevista também encontra-se disponível para download na seção de downloads do Portal Um Guru Imortal, acessível em www.yogananda.com.br

Paramahansaji, o Senhor pertence a alguma ordem espiritual particular ?

Sim, pertenço à antiga Ordem dos Swamis da Índia, reorganizada séculos atrás na sua presente forma por Swami Shankara, Adi Shankaracharya. Eu faço parte do ramo “Giri” (montanha), uma das dez subdivisões da Ordem, tal como meu guru Swami Sri Yukteswar, de quem recebi iniciação.

O Senhor é um homem de religião; mas você não acha que a religião tem sido motivo de divisão, derramamento de sangue e do mal no mundo ?

A existência de imitações do ouro não diminui o valor do verdadeiro ouro. Similarmente, religiões espúrias não retiram o valor da religião verdadeira. Aqueles que abusam do poder da religião ou que apenas fingem seguir as práticas religiosas para sua própria autopromoção tornam-se hipócritas e estão, algumas vezes, promovendo o mal; são falsos espiritualistas, não religiosos.

Aqueles que exemplificam a verdadeira religião, ou dharma[1], são fontes de inspiração e elevação ao mundo; tornam-se eternamente livres do sofrimento. Religião verdadeira consiste naqueles princípios nos quais o corpo, a mente e a alma podem se tornar unidas a Deus. Ela constitui, em última instância, o único caminho de salvação que pode resgatar o homem de todo o sofrimento na terra.

É a religião por si mesma realmente necessária à elevação do homem? Quando ele adere a uma fé particular ou ordem, não se limita a si mesmo, criando barreiras entre ele próprio e pessoas de outros credos ?

Religiões dogmáticas são atalhos, algumas vezes ruelas cegas que conduzem ao nada; mas, mesmo assim, uma religião dogmática pode conduzir o buscador sincero à larga rodovia da verdadeira religião, que, por sua vez, conduz a Deus. Essa larga rodovia é a ioga, o processo científico através do qual toda alma se reconcilia com Deus.

No Bhagavad Gita, ioga é proclamada como mais importante que todos os demais caminhos – mais que o caminho da devoção, da sabedoria e da ação justa. Ioga é a ciência sobre como o homem descendeu do Espírito ao corpo e tornou-se identificado ao corpo e aos sentidos; e como pode ele reascender a Deus.

A experiência ou realização da verdade que vem da prática da ioga é a prova da unidade subjacente de todas as religiões, encontrada na percepção do seu denominador comum – Deus.

Deve a religião tomar a forma de uma entidade organizada, como o Budismo ou Cristianismo, ou deve consistir uma fé individual e intuitiva ?

A religião organizada é a colméia; a auto-realização é o mel. Ambos são necessários. Mas sempre acontece que, quando a religião organizada se concentra em doutrinas e cerimônias, torna-se uma colméia dogmática vazia.

No extremo oposto, alguns iogues que vivem nos Himalaias acumulam o mel da auto-realização em seus corações, sem prover colmeias de religião organizada, através da qual outros poderiam se saciar com o néctar divino.  Isto é egoísmo.

Se a religião organizada estiver guarnecida por grandes sábios, ela promove o bem no mundo. Se é promovida apenas egoisticamente, de forma intolerante, ou dirigida para fins comerciais, ela faz um bem muito pequeno e causa danos a muitos.

Se a fé é intuitiva, é mesmo necessária a presença de um guru ?

Deus não fala abertamente ao buscador espiritual principiante; sua intuição não está ainda desenvolvida, e assim a orientação interna não é infalível. Deus então guia os ensinamentos por meio de um guru que realmente O conhece. O preceptor deve possuir sintonia divina ou, do contrário, teremos “um cego guiando outro cego”.

Não toma a religião forma dogmática depois que é organizada e orientada por símbolos e convenções ?

Assim como a noz fica oculta pela concha, a verdadeira religião se oculta nas formalidades dogmáticas da religião. Do mesmo modo que a casca da noz pode ser aberta pelo quebra-noz e o alimento encontrado dentro, buscadores espirituais profundos, através do quebra-noz da meditação intuitiva nos ideais religiosos, podem quebrar a casca dogmática e alcançar a verdade interna oculta.

Um corvo pode bicar inutilmente uma casca dura de noz e nunca alcançar a castanha; similarmente buscadores espirituais superficiais mordem sem sucesso a casca dogmática da religião sem nunca alcançar o núcleo da verdade.

O Senhor acredita que existe uma unidade fundamental de todas as religiões. Se tal unidade existe, por que há disputas e conflitos entre os seguidores de um credo e os outros que possuem outras convicções ?

Nós lemos sobre esses conflitos mesmo através das escrituras antigas. Os discípulos do grande deus Shiva[2] exaltavam-no como supremo; os devotos Vaishinavas consideram Vishnu e sua encarnação como Rama ou Krishna superior.

Os seguidores dentro das divisões religiosas não possuem a realização daqueles cujas vidas inspiraram caminhos verdadeiros. Tenho dito constantemente se Jesus, Krishna, Buda, e outros verdadeiros emissários de Deus aparecessem juntos, eles não promoveriam disputas, mas beberiam do mesmo único copo da comunhão em Deus.

A diversidade de visão dos religiosos é semelhante à estória contada na Índia sobre seis irmãos cegos que estavam lavando um elefante.

O primeiro irmão proclamou que o elefante é como uma enorme parede; ele estava lavando as laterais do paquiderme. Ouvindo isso, o segundo irmão discordou, asseverando que o elefante é como uma vara de bambu flexível; ele estava lavando a tromba. O terceiro, pensando que os dois irmãos estavam tontos, insistiu que o elefante é semelhante a duas folhas de bananeira; ele estava lavando as orelhas.

Ouvindo essas absurdas declarações, o quarto irmão os corrigiu definindo o elefante como um grande telhado de carne sustentado por quatro pilares; ele estava lavando as pernas. O quinto irmão ria descontroladamente, pois para ele o elefante era dois pedaços de osso; ele estava lavando as presas do elefante. Finalmente, o sexto irmão disse que eles estavam loucos e  afirmou incisivamente que o elefante era uma corda descendo do céu; ele estava lavando o rabo e, sendo o menor, não podia pegar no topo do rabo, concluindo que ele descia das regiões celestiais.

Enquanto observava a discussão, o perspicaz pai explicou, “todos estão certos e todos estão errados. Estão certos porque descreveram aquilo que experimentavam, mas errados porque cada experiência era apenas parte do todo. O elefante é um agregado de todas essas partes”.

A consciência humana evolui através das encarnações e gradualmente experimenta mais e mais do oceano de alegria da Verdade. Cada pessoa pode absorver apenas o grau da sua experiência individual. Essas diferenças de percepção são as causas dos argumentos e controvérsias, cada um vendo apenas a parte da Verdade integral.

A troca de diferentes visões é construtiva quando feita com abertura e respeito; mas destrutiva, terminando em disputas, quando há intolerância e fanatismo.

O Senhor reconhece similaridades entre a fé hindu e cristã ?

O Bhagavad Gita e a Bíblia Cristã, especialmente o Novo Testamento, eu considero as maiores de todas as escrituras, porque ambas apontam o mesmo caminho iogue para Deus. O Bhagavad Gita ensina: “Aquele que vê o Espírito igualmente em todos é um homem de realização”[3] e a Bíblia diz: “Não sabeis vós que sois santuário de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós?”[4].

A Revelação de São João na Bíblia é uma alegoria dos mesmos princípios de ioga citados no Gita. Meu Guru enviou-me para o Ocidente especialmente para mostrar o caminho iogue que leva a Deus, subjacente à Bíblia e ao Bhagavad Gita.

O Senhor acredita que o povo americano é temente a Deus ? Eles são capazes realmente de terem fé em Deus, o Infinito desconhecido, ao mesmo tempo em que enfatizam uma vida materialista ?

Eu creio que os americanos, que alcançaram o máximo em termos de realização material, estão se abrindo mais aos ideais espirituais; enquanto que em alguns países Europeus e Asiáticos, devido à fome, doenças e carências, as pessoas estão mais propensas ao materialismo.

Os ocidentais realmente compreendem a filosofia indiana que o Senhor ensina? Como a América foi escolhida, entre tantos lugares, para sediar suas atividades organizacionais ?

Ioga é científica, e os americanos respondem a esse tipo de aproximação com Deus. Ainda há bastante materialismo e dogmatismo. A América e outras nações do Ocidente estão prontas e ansiosas para provar técnicas que assegurem uma experiência prática de Deus. Quando eu encontrei meu guru em Benares, ele disse que meu destino seria mostrar às pessoas do Ocidente a unidade de sua religião com a religião da Índia. Minha missão na Índia também está progredindo.

O Senhor enfatiza o sistema iogue de Patânjali ou aquele do Bhagavad Gita ?

Se houvesse tempo agora, eu lhe mostraria como todos os guerreiros  mencionados no Gita são representações alegóricas dos mesmos princípios iogues mencionados nos Yoga Sutras de Patânjali. Por exemplo, os gêmeos Pandava, Nakula e Sahadeva, representam yama e niyama (as regras proscritivas e prescritivas a serem seguidas).

Arjuna representa autocontrole ardente. Bhima representa pranayama (controle da energia vital) e Yudhisthira (“aquele que se encontra calmo durante a batalha”) representa a calma e intuição discriminativa. Os opositores Kurus, que furtam o reino dos íntegros Pandavas, representam as qualidades e forças negativas a serem superadas pelo aspirante iogue.

As verdades do Gita foram escritas primeiro e elucidadas em sutras resumidos por Patânjali. Seu trabalho é uma condensação primorosa da ciência iogue.[5]

O Senhor acredita que, para a realização final, a Hatha Yoga possui um papel importante ? O Senhor recomenda a prática de Hatha Yoga ?

As posturas de Hatha Yoga, ou asanas, são muito benéficas para as pessoas jovens. Quando começam as práticas desde cedo, elas são capazes de permanecerem numa postura e  aprofundarem-se na meditação por um longo tempo, sem provocar desconforto ou distúrbios ao corpo.

Certas posturas, entretanto, não podem ser praticadas por muitos adultos, cujos corpos são pouco flexíveis. Pessoas idosas que tentam realizar práticas sem o devido cuidado podem acabar se machucando; e quanto elas tentam meditar com posturas dolorosas, a mente se concentra mais na dor do que em Deus. Assim, até onde asanas interessam, recomendo para todos que são jovens. As asanas as ajudam a se manterem excepcionalmente jovens e saudáveis, como se vê nos garotos e jovens monges e monjas que residem em nossos ashrams.

Mas eles aprendem, além disso, Kriya Yoga, com o objetivo de comunhão com Deus. Kriya Yoga, apresentada a esta era presente por Sri Shyamacharan Lahiri Mahasaya, é a mais elevada de todas as técnicas de Raja Yoga[6]. Você pode ler sobre a Kriya Yoga, onde expus com mais detalhes, na minha Autobiografia de um Iogue.

Você acredita que a prática de Hatha Yoga, por si mesma, desenvolve força espiritual e auto-realização ?

Não; Hatha Yoga apenas disciplina o corpo e o mantém saudável e pronto para o avanço espiritual da Raja Yoga, meditação para a comunhão com Deus.

O senhor aprova as diversas ordens de saktas e tantrikas (ou alguma delas) ?

Todas elas trazem coisas boas em sua concepção original, quando corretamente compreendidas na forma pura; entretanto, como praticadas hoje, elas são, na grande maioria, ruins, pois advogam métodos fantásticos que não são adequados ao homem comum.

Alguns tantrikas que conhecem certas palavras-chave, mantras vibratórios, através dos quais são capazes de sintonizar suas consciências para terem visões  de deidades (personificação de poderes divinos), e assim comungarem com Deus, realizam uma boa prática; mas tantrikas que são tolerantes com rituais que envolvem sexo, vinho e práticas demoníacas não são boas[7].

Os tantrikas dizem que, não a supressão, mas a saciedade dos sentidos é que pode apontar para a bem-aventurança. O senhor concorda com essa ideia ?

Os tantrikas não dizem isso. Certos seguidores de Tantra tentam desenvolver autocontrole através do engajamento em sexo, provando alimentos e bebendo vinho, enquanto se mantêm mentalmente desapegados a essas ações. Pessoas que são desregradas em seus hábitos talvez encontrem alguma vantagem nos aspectos básicos da prática da moderação e controle mental.

Mas os iogues geralmente condenam esse caminho, pois a maioria dos buscadores meramente encontram nisso uma desculpa para ceder a seus instintos primários na direção da luxúria, não para alcançar autocontrole.

O caminho da renúncia interna e da meditação científica para o contato com Deus como Bem-Aventurança, ensinado pelo Bhagavad Gita, é o caminho supremo.  Ele capacita até mesmo o buscador fraco da verdade a se retirar dos cenários tentadores da sua fraqueza, proporcionando o sabor da Bem-Aventurança divina interior, na qual, por comparação, encontrará muito mais  satisfação que os prazeres da indulgência material.

Há realmente um Deus, pessoal ou infinito, que crea e destrói o universo ? É Deus que crea o homem à sua imagem ou o homem, em seu medo e ganância, que cria esse Ser à sua imagem. A presença de tanta maldade e sofrimento no mundo parece sustentar essa visão?

A visão humana sobre o universo é perversamente restringida pela circunscrição limitada da sua mente e dos seus sentidos. Então, ele vê coisas creadas, mas não vê sua essência nem seu creador. Em um filme, vemos o vilão e o herói projetados numa tela pelo mesmo brilho de luz.

O vilão do filme foi criado e, por contraste, nós amamos e somos inspirados pelo herói. Analisando o filme, tanto o vilão quanto o herói e os eventos que giram em torno deles, são criados pelo mesmo princípio e nós entendemos que nenhum dano acontece – tudo foi um retrato de sombras e luzes. O mesmo se pode dizer sobre o sempre-cambiante filme da creação de Deus.

Sábios que realizaram sua unidade com Deus vêem a creação como um filme de forças que emanam dEle. O homem, embora creado à imagem de Deus (uma alma que é uma parte individualizada dEle), tornou-se identificado com a desilusão cósmica relativa de luz e sombra, ou maya. Quando ele usa do seu livre-arbítrio para adotar aquelas ações através das quais pode livrar a si mesmo ao apego à maya, compreende a verdadeira natureza da creação e do creador.

No estado de desilusão, entretanto, a consciência humana sobre Deus é limitada ou expandida de acordo com o grau de sua desilusão. O homem de realização completa conhece Deus como sempre-existente, sempre-consciente, bem-aventurança sempre renovada; e toda a ilusão contrastante desenvolvida desta Consciência Cósmica subjacente.

Deus creou diversos tipos de faculdades e potencialidades para o homem e para toda a creação, mas o homem,  como uma parte individualizada de Deus e dotado de livre-arbítrio, tornou-se atraído pela desilusão através do mau uso dessas faculdades. Fazendo isso, ele mesmo pode criar boas ou más regras para atuar no drama cósmico, e assim influenciar os eventos com tendências à bondade ou à maldade.

Quando o homem cessa de identificar a si mesmo com o corpo e com a matéria, compreende que é feito à imagem de Deus – não antes. O homem iluminado trabalha com Deus para a consolidação do bem no mundo e pela elevação divina dos outros.

É essencial que exista um Deus ?

Algo não pode vir do nada. Deve ser Algo que é a causa e força do ser. Esse Algo é Espírito, Consciência Eterna, o Deus Pai-Mãe da Creação. Assim como as ondas do oceano não podem existir sem o oceano, do mesmo modo almas-ondas, ou expressões individualizadas do ser, não poderiam existir sem o oceano da presença de Deus.

À medida que as almas-ondas jogam com as tempestades das desilusões, acabam atiradas para fora do mar e são  perturbadas e feridas. É por isso que é essencial retornar às calmas profundezas do seio oceânico de Deus.

O que é Bem-Aventurança, a libertação final ? O homem não nasce uma vez e é sua individualidade perdida para sempre ?

O homem vive em um corpo e com um determinado nome apenas uma vez. Ele nunca reencarna novamente com a mesma forma e identidade. Uma pessoa pode vestir uma roupa por algum tempo e depois descartá-la, e nunca mais usá-la. Similarmente, a alma veste um diferente corpo em cada uma das muitas vidas até que, através da reencarnação e da evolução espiritual, ascenda novamente ao Espírito.

Desse modo, você vive apenas uma vez como uma pessoa específica, mas a alma, o você eterno, vive através de muitas encarnações, carregando consigo a personalidade cumulativa e tendências cármicas de suas existências passadas.

A mente, ou consciência sensível no homem, está sujeita às ondas alternantes que agitam a alma e a mantém separada de Deus: a vibração de tristeza; a vibração de prazer; e a vibração de indiferença ou tédio. Quando essas vibrações, criadas pela tempestade de desilusão, se dispersam pela prática da ioga, o homem experimenta um estado negativo de paz, isto é, ausência dessas agitações.

Através da prática profunda de ioga e meditação, ele continua na direção do vale de paz até experimentar o estado positivo de Bem-Aventurança sempre renovada. Tristeza, prazer e indiferença são experiências transitórias da alma encarnada; mas o estado de Bem-Aventurança é parte integral do Ser, e como tal é eterno. É sempre-nova; nunca envelhece. Uma vez alcançada essa Bem-Aventurança, o homem não precisa buscar mais nada.

Quando ele se identifica com sua alma como Bem-Aventurança sempre-renovada, sempre-existente e sempre-consciente, ele então se funde com a Toda-Envolvente Bem-Aventurança sempre-renovada, sempre-existente e sempre-consciente do Espírito – igualmente a uma pequena gota, retorna ao oceano. Mesmo assim, a individualidade nunca é perdida; aquela porção do Espírito retém eternamente a “memória” daquela existência individualizada.

Daquilo que tenho visto do seu trabalho, percebi que o Senhor possui um desenvolvido grupo de seguidores. O senhor precisou se esforçar para criá-lo ?

Um magneto faz algum esforço para atrair o ferro ? Há uma atração natural de acordo com a afinidade do ferro e da força do magneto. É claro, o ferro deve estar próximo o suficiente do magneto para ser atraído. Do mesmo modo é a relação entre o guru e o discípulo. É uma questão de receptividade do discípulo e da força espiritual do preceptor para inspirá-lo e atraí-lo a Deus.

Jesus disse: “ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o trouxer”[8]. Deus onisciente dirige os buscadores superficiais para o contato com ensinamentos menores e livros espirituais; através desses instrumentos, conquistam certos benefícios compatíveis com o seu grau espiritual de compreensão e discernimento.

Mas os buscadores profundos de Deus são trazidos a Ele através do contato com gurus completamente realizados, que estão aptos a comungarem com Deus e servirem como canais que transmitem orientação perfeita. É tarefa deles apresentar o devoto a Deus. Então é Deus, ao final das contas, que une guru e discípulo, mas há também um desejo da parte deles para estarem juntos.

Através da vontade ardente e sincera o discípulo, às vezes inconscientemente no início, busca o guru – aquele que pode orientá-lo no caminho de Deus. E o verdadeiro guru, quando sente intuitivamente que um discípulo foi enviado por Deus, faz um esforço para atraí-lo e para ajudá-lo. O verdadeiro discípulo, encontrando um verdadeiro guru, torna-se magneticamente atraído por ele e o reconhece como enviado por Deus. Essa é a lei.

Talvez o Senhor venha a concordar que o mundo está enfrentando uma crise. Qual é a causa dela e qual é o remédio ?

Todas as nações devem seguir a influência das eras (yugas) ascendentes e descendentes. A presente crise mundial ocorre devido à subida ascendente da Dwapara Yuga[9]; para que o mundo torne-se melhor, o mal deve ser expurgado. As forças do mal causarão sua própria destruição, assegurando sobrevivência das nações íntegras.

O conflito entre o bem e o mal acontece desde o alvorecer da história. Mas, à medida que o mundo se move para frente através da Dwapara Yuga, a era atômica ou elétrica possui grande potencial não apenas para o bem, mas também para a destruição pelo abuso da tecnologia por aqueles que estão sedentos de poder.

Mantendo-se sob a influência de Dwapara Yuga, a tecnologia está rapidamente movendo  o povo a elevados níveis de realização. Mas esse progresso também cria uma grande distância entre realizadores e não-realizadores. Isso fomenta a inveja e os problemas sociais, econômicos e políticos.

O Senhor acha, então, que o comunismo com sua filosofia de eqüidade e sua política de igualar as camadas da sociedade num mesmo nível está fazendo um trabalho humanitário, facilitando o trabalho de Deus, se me permite, sobre as necessidades de todos os Seus filhos ?

Eu acredito na fraternidade do homem criada pelo amor mútuo, entendimento e cooperação. Todos os objetivos válidos e ideais dignificantes deveriam ser apresentados ao mundo pelo exemplo espiritual e bons métodos, não pela força bruta e pela guerra. Forças políticas destituídas de princípios espirituais são perigosas.

Por princípios espirituais não me refiro a doutrinas ou religiões específicas – que podem ser também divisoras – mas ao dharma ou princípios universais de retidão e justiça, aplicáveis ao bem-estar de toda a humanidade.  Para prevenir a propagação do mal, às vezes até a guerra justa é necessária. Você não pode receitar não-violência e cooperação para um tigre feroz, pois ele lhe destruiria antes mesmo de você poder expor sua filosofia.

Alguns homens que perpetram o mal são similarmente insensíveis à razão. Aqueles que apostam na agressividade, como Hitler, perderão. Aqueles que são compelidos a lutar a guerra justa contra o mal, vencerão. Se uma guerra é ou não justa, cabe somente a Deus julgar.

O Senhor acha que a América precisa mudar seu caráter ?

A América representa o mais elevado em termos de desenvolvimento material que é mais necessário no mundo; e a Índia representa, através de seus grandes mestres e profetas, o apogeu da realização espiritual. No curso da evolução da civilização, Deus trouxe esses exemplares para mostrar que entre esses dois antípodas encontra-se a civilização ideal: o equilíbrio entre materialismo e espiritualidade.

Todo o mundo precisa adotar alguns dos mais belos aspectos do materialismo progressista da América, e também do idealismo espiritual da Índia. Os americanos já estão abraçando uma grande parte da civilização espiritual da Índia, como se evidencia através do fenômeno do crescimento da Self-Realization Fellowship, e pela difusão do interesse pelo pensamento Hindu em geral.

A Índia, por outro lado, necessita de uma grande porção de know-how científico dos americanos para lutar contra a doença, pobreza  e provincianismo, que são máculas mantidas em nome da elevada herança espiritual. O Oriente deveria adotar os melhores métodos construtivos do Ocidente, e o Ocidente deveria seguir a ênfase Oriental em Deus como supremo objetivo da vida.

O Senhor gostaria de deixar uma mensagem para o mundo ?

Meus irmãos e irmãs do mundo: por favor, lembrem-se que Deus é nosso Pai e ele é Único. Somos todos Seus filho e, como tais, devemos adotar  meios construtivos para ajudarmos uns aos outros a nos tornarmos fisicamente, mentalmente, financeiramente e espiritualmente cidadãos ideais dos Estados Unidos do Mundo.

Se, em uma comunidade de mil pessoas, cada indivíduo luta de forma astuciosa para enriquecer a si mesmo à custa dos outros, cada pessoa terá novecentos e noventa e nove inimigos; enquanto que, se cada pessoa cooperar com os outros  – fisicamente, mentalmente, financeiramente e espiritualmente – cada um terá novecentos e noventa e nove amigos. Se todas as nações ajudarem umas às outras através do amor, a terra inteira viveria em paz com amplas oportunidades de promoção do bem-estar de todos.

O homem parece ter esquecido sua natureza espiritual, voltando-se para seus instintos animais primários.  Deus creou o homem como um potencial ser espiritual; assim, à medida que ele der ouvidos à sua natureza animal, ele se encontrará em problemas, guerras, escassez, pobreza e doenças. Quando ele compreender a necessidade por fraternidade universal, criará um mundo de grande prosperidade e felicidade.

É triste ver líderes de nações promovendo a miséria por causa da ganância e ódio, ao invés de juntar-se a outros no espírito de boa vontade e harmonia com o objetivo de trabalhar suas diferenças. Por causa da ambição e de políticas malignas, a terra passou por duas grandes guerras e encarou a perspectiva de uma terceira. Se o dinheiro gasto na destruição fosse poupado num fundo internacional, seria possível remover as favelas do mundo, erradicar a fome e fazer avançar a ciência médica, permitindo a todo homem, mulher e criança uma chance melhor de viver na paz de uma vida centrada em Deus.

A história mostra que a partir do alvorecer da civilização, o ódio e o egoísmo no homem criou inúmeras guerras, com sua sempre crescente bola de neve de miséria. Uma terceira guerra mundial faria crescer essa bola de neve até congelar toda a terra com miséria, pobreza e morte.

A única forma de derreter essa bola de neve de miséria é através da fraternidade, amor e sintonia divina que vem dos métodos de meditação que unem todos a Deus. Quando toda alma elevar-se por cima das pequenas divisões através de um verdadeiro entendimento espiritual, a miséria mundial será consumida no fogo da realização da universalidade de Deus e da fraternidade dos homens.

Os meios de comunicação, como rádio e televisão, e as viagens aéreas, têm unido a todos como nunca antes. Temos que aprender que não se pode mais falar de Ásia para asiáticos, Europa para europeus, América para americanos, etc, mas os Estados Unidos do Mundo sob a regência de Deus, no qual cada ser humano pode se tornar um cidadão ideal do globo com todas as oportunidades para realização do corpo, da mente e da alma.

Esta é minha mensagem e minha súplica para o mundo.


[1] Eternos princípios de justiça que sustentam toda a creação; dever inerente do homem de viver em harmonia com esses princípios.

[2] Três aspectos da imanência de Deus na creação. Representam a função trinitária da Inteligência Crística (Tat) que guia as atividades de creação, preservação e destruição da Natureza Cósmica.

[3] “Está com a Verdade aquele que percebe o Senhor Supremo igualmente em todas as criaturas, o Imperecível entre perecíveis” (Bhagavad Gita XIII:27)

[4] I Corinthias 3:16

[5] Os pontos precedentes são comentados por Paramahansa Yogananda no seu livro A Yoga do Bhagavad Gita.

[6] A Ioga Real, o mais elevado caminho para a união com Deus.

[7] Paramahansa Yogananda se refere aqui à Vamachara, rituais tântricos ambíguos que foram proscritos na Índia quando suas práticas  foram pervertidas a simples hedonismo. (Rituais tântricos aceitos advogam diversas formas de ioga sistemática e autodisciplina.)

[8] João 6:44

[9] As escrituras hindus ensinam que a terra segue repetidos ciclos de evolução e retrocesso. Esses ciclos do mundo consistem de 24.000 anos cada, e são divididos em quatro yugas ou eras – 12.000 anos de ascensão através dessas yugas na promoção da iluminação e, depois, 12.000 anos de descida através de yugas marcadas pela ignorância e pelo materialismo. Cada meio-ciclo consiste de Kali Yuga, a era materialista ou negra; Dwapara Yuga, a era elétrica ou atômica; Treta Yuga, a era mental; e Satya Yuga, a era da verdade ou da iluminação.

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